Na linha de frente

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28/04/2020 às 09:30
Bárbara Munhoz e Giovana Guessada

Foto: Banco de Imagens/ Unsplash

As olheiras acompanhavam o rosto cansado, o corpo implorava por uma trégua. Sua mente parecia uma bomba relógio e a cada segundo se aproximava de um colapso.

Quando Laura se formou em Enfermagem, tinha consciência de que enfrentaria muitos desafios nos hospitais. Mas isso não foi o suficiente para lhe preparar para o que estaria por vir. Afinal, uma pandemia não acontece todos os dias.

Quarto 435. Foi lá que a enfermeira deixou o que sobrara de suas forças. A equipe foi chamada às pressas, o desespero tomava conta daquele corredor que parecia não ter fim. A porta já estava aberta e, quando Laura a atravessou, perdeu o chão.

A criança havia sofrido uma parada cardiorrespiratória. As lágrimas chegaram ao mesmo instante. A pequena Isabela tinha a vida inteira pela frente, mas a Covid-19 foi mais rápida. A enfermeira saiu do quarto com a visão turva, sentou-se no chão e não fez questão de disfarçar a dor.

Pela primeira vez em muitos meses, o silêncio tomou conta do segundo andar do Hospital São Paulo. Toda a equipe estava abalada. A morte parecia perambular pelos corredores, escolhendo qual quarto visitaria. 

Depois de uma pausa que parecia ter durado anos, Laura se levantou. A guerra contra o vírus fora travada. Jurou para si mesma que daria o sangue naquela batalha.

As horas foram se arrastando ao longo do dia, a imprensa já estava posicionada na entrada do hospital, e a notícia de que a primeira criança com Coronavírus morrera, foi assunto em todos os sites e telejornais daquela terça-feira.

Fim de plantão. Laura se dirigiu à saída lateral, pois não tinha estruturas para lidar com os repórteres.

Já era tarde e São Paulo, a cidade que não dormia, parecia abandonada, com lojas fechadas e ruas desertas. Quando se está na linha de frente do combate a uma doença, alguns dias serão mais fáceis, outros não. Ganhos e perdas fazem parte da vida.

*Crônica não baseada em fatos reais.

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