No dia do cinema brasileiro, alunos e professores falam sobre o setor

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05/11/2020 às 12:26
Izabelly Fernandes

Dia do Cinema Brasileiro é comemorado no dia 5 de novembro (Foto: Cedida/Bárbara Albertoni)

Você já parou para pensar no modo como consome as produções cinematográficas? Com qual frequência as obras nacionais estão inseridas estão inseridas nisso? Durante muito tempo se teve uma visão de que o cinema brasileiro era ruim e, claro, há muitos fatores por trás da instituição desse estigma. Por isso, em comemoração ao Dia do Cinema Brasileiro, que é celebrado nesta quinta (5/11), o Portal Facopp conversou com alguns professores da área sobre esse assunto e conhecemos alguns alunos que, na universidade ou de forma independente, compõem o setor com suas obras audiovisuais.

Vale lembrar que essa comemoração é feita em duas datas: 19 de junho e 5 de novembro. Isso porque a primeira faz referências as primeiras imagens em movimento no Brasil, no ano de 1898. Já a segunda, diz respeito ao dia em que foram projetados oito pequenos filmes para a elite carioca na Rua do Ouvidor, em 1896 no Rio de Janeiro, além de fazer uma homenagem ao nascimento do cineasta Paulo César Saraceni e a morte do cineasta Humberto Mauro.

Cinema nacional é ruim?

O professor Luiz Dale Vedove explica que existem vários fatores que contribuem para a formação da ideia de que o cinema brasileiro é ruim. Para ele, essa visão vem desde os primeiros filmes produzidos no Brasil, como consequência do mercado audiovisual e das políticas públicas de incentivo a essas produções. “Durante a Era de Ouro do cinema americano, por exemplo, a maioria dos países da América Latina, incluindo o Brasil, viviam sob regimes autoritários ou ditatoriais, que consistiam em sistemas antidemocráticos que não incentivavam o setor, exceto quando para satisfazer interesses ideológicos dos governos vigentes”, esclarece. Por isso, ele diz que o cinema americano, principalmente, sempre saiu na frente.

“Nas décadas de 20 e 30, os Estados Unidos já possuíam um parque cinematográfico consolidado e com os meios de produção hierarquizados e sistematizados, sendo, inclusive, um dos maiores propulsores econômicos do país. Os filmes hollywoodianos eram os mais consumidos em todo o mundo. Esse sucesso absoluto dificultava o desenvolvimento do setor nacional, uma vez que os filmes americanos ocupavam quase todas as salas de projeções disponíveis no mercado. Ainda hoje, embora o cinema nacional tenha mais espaço nos letreiros dos cinemas, é um problema a ser superado”, explica Dale.

No entanto, o professor explica que no Brasil as comédias protagonizadas por Mazzaropi e Grande Otelo, por exemplo, fizeram grande sucesso entre a população. Durante essa época, ele fala que também houve o surgimento do Cinema Novo, que ia contra esses filmes populares e hollywoodianos produzidos até então. Contudo, como esses tipos de filmes eram pautados pela crítica social e política, Dale explica que muitos foram alvos de censura, e alguns sequer foram vistos.

O professor esclarece que a ideia de que o “cinema nacional é ruim” só perdeu um pouco a força na metade da década de 90, quando vários filmes nacionais passam a ser reconhecidos internacionalmente. No entanto, ele justifica que essa visão também pode ser consequência da falta de investimento e da ideia de preconceito cultural. “O que domina geralmente é o que vem de fora e, infelizmente, todas essas questões voltam à tona quando a política vigente, além de não impulsionar, elege a cultura e o cinema como um inimigo a ser derrotado”, afirma.

O professor Renato Pandur também fala que essa visão negativa do cinema nacional está ligada à desinformação, que é um fator que pode influenciar no consumo de filmes nacionais, favorecendo a falta de vontade e interesse no hábito de conhecer diversas culturas, inclusive a do próprio país. “Infelizmente hoje no Brasil o que vemos é crescente falta de estímulo à cultura. Tornou-se uma luta individual, solitária”, acrescenta. Pandur ainda afirma que as universidades possuem papel fundamental de incentivo à cultura, criando oportunidades para que os alunos explorem novos mundos, conteúdos e ampliem os repertórios culturais.

“O Cinema Brasileiro é rico em muitas formas, mas o que fica na vitrine são as obras mais populares, como as comédias. Temos produções incríveis desde o Cinema Novo com Gláuber Rocha, os clássicos dos anos 90 como Central do Brasil, obras baseadas na nossa literatura, além de muitos filmes bons no circuito underground. Como eu disse, o que falta é o interesse das pessoas em consumir a cultura em todo o seu raio de atuação. Muitas vezes toma-se como cultura o que nos é empurrado por meio do mainstream (corrente dominante) e isso também acontece com outros setores da arte”, opina Pandur.

Cinema nas universidades

Barbara é diretora do documentário Salas Vazias, produzido pela turma da pós-graduação em Cinema e Audiovisual da Unoeste (Foto: Cedida/ Barbara Albertoni)

Como forma de fomentar esse tipo de produção artística e instigar a vontade e a percepção dos jovens por outros tipos de movimentos cinematográficos, que não sejam os convencionais, alguns projetos são instituídos nas universidades. A Barbara Albertoni, por exemplo, é aluna da pós graduação em Cinema e Audiovisual na Unoeste, e é diretora do documentário Salas Vazias que está sendo produzido pela turma, cujo tema são os impactos da pandemia na indústria audiovisual brasileira.

“Acho que é fundamental aproveitar esse momento para expor o que acontece nos bastidores dos filmes e denunciar o descaso e a falta de políticas públicas. Atualmente, nós estamos presenciando um ataque covarde à Cinemateca Brasileira por parte do Governo Federal e uma luta diária dos funcionários pela preservação do patrimônio audiovisual brasileiro, que pode se perder a qualquer momento. A Ancine sofre com o sucateamento há anos. Sem contar as inúmeras ameaças de censura. Nós temos que mostrar que existe cinema no Brasil há mais de 100 anos e que os filmes brasileiros possuem qualidade igual ou superior aos filmes de Hollywood”, comenta Barbara.

O documentário foi trabalhado em três episódios, retratando a produção e os repasses de verbas do setor; a reinvenção durante a pandemia e a adaptação ao trabalho remoto; e a distribuição das obras, abordando o fechando das salas de cinema e o aumento do consumo de streaming como mudança no hábito de consumo. A produção foi feita de forma remota, com filmagens em casa e entrevistas gravadas por chamadas de vídeo. Apesar do desafio, Barbara fala que por conta do remoto teve a oportunidade de entrevistar pessoas de diferentes lugares, podendo contribuir para mais visões sobre o cinema nacional. “O cinema brasileiro é vivo, é a memória do país e é fundamental termos um contato maior com a nossa cultura e com a nossa história”, reflete.

Ramon é aluno do 4º termo de Jornalismo e está produzindo o curta Café da Tarde (Foto: Cedida/ Ramon Diniz)

Os alunos do 4º termo de Jornalismo também estão realizando a produções de curtas-metragens que serão exibidos em um festival no dia 1º de dezembro. O aluno Ramon Diniz diz que sempre gostou de cinema e das produções audiovisuais e que embora haja as limitações do modelo remoto, a criatividade tem deixado tudo mais fácil. “Acredito que, para mim, entender na prática o que significa fazer um filme é muito divertido”, fala. Com o curta intitulado como Café da Tarde, o grupo de Ramon buscar produzir algo voltado para o entretenimento. “Escolhemos levar o suspense para o filme, trabalhando com a ideia de um assassinato ocorrido durante um café da tarde, após uma revelação bombástica estremecer a relação entre duas amigas. Tudo foi pensado para levar mistério, suspense e ansiedade ao espectador. Acredito que vai ser bem legal”, revela.

Cinema independente

Há também quem faça as produções independentes. Este é o caso do Marco Vinicius Ropelli, aluno do 6º termo de Jornalismo. Com apenas 20 anos, o jovem já produziu três longas metragens, intitulados como O Poliglota (2016), Briga de Reis (2017) e Duas Águas (2018). Além disso, durante a pandemia, Marco produziu dois curtas: A Holandesa e Home Office: Ou o Homem da Cabeça de Repolho.  Todas essas produções foram exibidas em sessões públicas em Presidente Prudente e em Álvares Machado.

Com 20 anos, o aluno Marco Vinicius do 6º termo de Jornalismo já produziu três longas e dois curtas-metragens (Foto: Cedida/ Marco Vinicius Ropelli)

Marco acredita que o cinema brasileiro deve ser fomentado, pois possui grande potencial para se destacar no setor do mundo todo, além de ter a capacidade de educar, propagar a cultura, desenvolver senso crítico e gerar renda para o país. “Na década de 60, O Pagador de Promessas, do Anselmo Duarte, venceu a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes na França. Central do Brasil e Tropa de Elite também venceram o Urso de Ouro do Festival de Berlim, mas nunca um filme brasileiro venceu aquele que pelo menos é o prêmio mais pop da sétima arte, o Oscar da Academia Americana”, expõe.

O aluno ainda fala que é importante despertar outra visão sobre o cinema brasileiro, principalmente nos jovens, que geralmente estão mais acostumados com o cinema de entretenimento, e acabam não dando o devido valor para obras que despertem olhares para problemas do dia a dia do país. E ele ainda acrescenta: “talvez o caminho do sucesso comercial de filmes brasileiros seja a curiosidade. Mas para isso, antes é necessário que se tenha incentivo de patrocínio e apoio governamental”, afirma.

Opinião

O professor Renato Pandur acredita que as produções realizadas nas universidades, desde que carreguem um conteúdo amplo, como roteirização, estruturas narrativas, linguagem cinematográfica, fotografia, edição e pós-produção, podem preparar os alunos para uma nova visão não só sobre o cinema brasileiro, mas com a arte em geral. “A arte por si só já é libertadora, seja ela no campo da escultura, pintura, música e cinema…e se assim preferir, até do cinema brasileiro”, avalia.

Já o professor Luiz Dale Vedove fala que as produções audiovisuais são importantes, sobretudo na comunicação, pois colocam os alunos para pensar o mundo sob o olhar das lentes e partir de uma prática consciente do fazer audiovisual.

E ai facoppiano, gostou do bate-papo? Já pode ir escolhendo um filme nacional pra ver hoje, heim?

Confira alguns filmes brasileiros que estão disponíveis na Netflix:

  • O som ao redor (2012)
  • Como nossos pais (2017)
  • O filme da minha vida (2017)
  • Temporada (2018)
  • Hoje eu quero voltar sozinho (2014)
  • Branco sai, preto fica (2014)
  • Reflexões de um liquidificador (2010)
  • Cinema, aspirinas e urubus (2005)
  • O último cine drive-in (2015)
  • Aquarius (2016)
  • Histórias que nosso cinema (não) contava (2018)

E essas são algumas fotos das produções audiovisuais feitas pelos alunos da Facopp. Confere aí!

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